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Aruitemo Aruitemo
Bem mais sensível do que o seu conterrâneo ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro, ‘Aruitemo Aruitemo’ (Still Walking) mostra a reunião de uma típica família japonesa do interior. O reencontro acontece no aniversário de morte do filho mais velho, Junpei, que morreu na tentativa de salvar um garoto de afogamento. O protagonista é o filho mais novo, Ryoto, aos 40, cansado de ser negligenciado pelos pais, que mesmo muitos anos depois da tragédia ainda supervalorizam o falecido primogênito, único da prole a seguir a profissão de médico do pai.
As diferenças, os costumes, os desconfortos, os valores e as relações são retratados com imensa delicadeza pelo diretor Hirokazu Kore-eda, mostrando aqui o cotidiano e o banquete de desapontamentos que definem o filme de forma poética, sem excessos ou maneirismos. Os planos são simples, mas bem enquadrados. E assim como em ‘Era Uma Vez em Tóquio’ de Ozu, ‘emulado’ aqui, aliás, não somente nesse quesito, apenas um deles se move. A mise-en-scène cuidadosa faz da casa tradicional, da cidade e até mesmo da culinária, personagens secundários que ajudam a contar a história. É um filme bonito do início ao fim. Só poderia acabar um pouquinho mais cedo. Alguns minutos a menos cortariam falas desnecessárias e deixariam o desfecho mais enxuto.
Os Incompreendidos
- Seus pais dizem que você está sempre mentindo.
- Não, eu minto de vez em quando, eu acho.
Se eu disser a verdade eles ainda assim não acreditariam, então prefiro mentir.
Dentro de uma revolução narrativa, marcando a criação de um ‘gênero’, um personagem inesquecível do cinema francês: Antoine Doinel em ‘Os Incompreendidos’.
Primeiro longa de Truffaut, primeiro filme da nouvelle vague junto com ‘Acossado’ (Godard). Excelente. Parei pra pensar no quanto os diretores da atualidade tem que ralar para serem originais nos dias de hoje, já que filmes como este, feitos no final da década de 1950, ainda permanecem novos. A mensagem continua fresca e a técnica pouco retocável.
A Partida
E já que estamos na Ásia, posto aqui um breve comentário sobre ‘A Partida’, ganhador do Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano.

Gerada uma certa expectativa à partir das reações pós-Oscar, onde encontrei diversos comentários positivos de surpresa com relação a sua vitória, assisti ‘A Partida’ esperando algo um pouco diferente do que costuma ser graciado pela Academia na categoria conquistada pelo filme. No entanto, o que assisti foi a mais um típico longa estrangeiro vencedor de Oscar. Não que o filme seja ruim. O plot é interessante e o roteiro se sustenta até o fim, mesmo com suas bases melodramáticas. O tom cômico entra bem em algumas cenas e o drama também funciona em outras. Então, o que realmente me incomodou? Culpo, até o momento, a direção folhetinesca de Yojiro Takita, que conduz o filme de uma forma óbvia, segura demais. A sensação no final foi de que o longa, apesar de simpático, seria facilmente esquecido por mim, mas que poderia ter funcionado com baixa expectativa. Paradoxal?
Igual a Tudo na Vida
Outro dia minha irmã lembrou de mim enquanto lia um livro de crônicas da Martha Medeiros, colunista d’O Globo, chamado ‘Coisas da Vida’ (2003). Cinéfila e fã confessa de Woody Allen, Martha já dedicou várias de suas crônicas ao autor e suas obras. Nessa específica, ao filme ‘Igual a Tudo na Vida’, considerado um dos mais fracos da carreira do diretor, mas, ainda assim, apreciado pela autora e também por mim.
Mesmo tendo ciência de que certos filmes realmente não são lá grandes coisas, às vezes me deixo levar por outros fatores, além do que me foi mostrado na tela, e acabo guardando um bom sentimento com relação a algumas obras. No caso de ‘Igual a Tudo na Vida’, escolhido na locadora por ser o único do Woody em comum, não visto por quatro amigos, me deixei levar pela alegria de assistir à um filme divertido com pessoas queridas e em sintonia, rindo na mesma intensidade das mesmas piadas e se deixando afetar pelas mesmas citações life changing típicas do autor e presentes até nos longas menos importantes de sua vasta filmografia.
Ainda devo aqui no blog algo mais completo e de minha autoria sobre Woody Allen, mas, por enquanto, os deixo com a tal crônica – bastante sensível e particularmente tocante – sobre ‘Igual a Tudo na Vida’, que me fez pensar na mistura de fatores que se combinam na mente de cada um para que, afinal, se possa apreciar um filme.
Top 5 Miyazaki
Então… percebi recentemente que desde que inicei este blog não dediquei um post sequer à animação, que é uma das minhas paixões. Senti que estava negligenciando um “gênero” que estimo e, para corrigir o lapso, decidi fazer um top com os meus cinco filmes preferidos dirigidos por Hayao Miyazaki, respeitado diretor japonês, co-fundador de um dos estúdios de animação mais incríveis que existem, o Studio Ghibli, do qual ouço falar desde menino quando ainda comprava a Herói. Alguém há de lembrar das revistas Herói, não? Enfim.
Os filmes de Miyazaki são todos encantadores. Para apreciar suas histórias, seus roteiros, talvez seja necessário um certo gosto por animação japonesa, mas a temática do amadurecimento, do peso da responsabilidade e do companheirismo, presente em todas as suas obras, como também o seu gosto pela aviação, a preocupação com a ecologia e o contato do homem com a natureza, é fascinante. Mesmo destinados ao público infantil, seus filmes comovem qualquer adulto com um coração mole feito o meu. Além do mais, suas marcas registradas como o contorno suave, o típico character design dos seus personagens, as paisagens fantásticas e os tons pastéis, enriquecem tanto o visual, que fazem dele, sozinho, já valer uma investida nas obras do diretor.
Entre os Muros da Escola
Ser professor é tarefa para poucos. É um clichê, eu sei, mas vou começar e terminar essa resenha dessa forma que é pra deixar clara essa minha opinião, certo? E digo isso porque ‘Entre os Muros da Escola’ entra naquela categoria de filmes sobre o relacionamento entre escola, professor e aluno, já tantas vezes abordado no cinema. Nenhum deles, no entanto, trouxe de forma tão crua às telas – seco, quase documental. Trilha nem mesmo nos créditos finais – os dissabores experimentados por quem enfrenta uma sala de aula cheia de pupilos espertos, línguas afiadas, vindos de algum bairro suburbano, que torna suas existências mais complicadas e suas personalidades muito mais astuciosas.
Ganhador da Palma de Ouro no Festival de Cannes do ano passado e indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro, o longa dirigido por Laurent Cantet, traz todo esse background complicado, essa complexa e clássica batalha travada numa sala de aula de uma escola pública, mas com um diferencial, só pra tornar as coisas mais fáceis: dessa vez a escola se encontra no subúrbio de Paris e a turma é formada por filhos de imigrantes. Um problema ao mesmo tempo novo e velho, já que não é a primeira vez que a França se vê diante de uma situação difícil envolvendo seu sistema educacional (vide maio de 1968). Mas essa questão da imigração é realmente delicada e, obviamente, se intensifica numa sala de aula cheia de adolescentes pertencentes a pelo menos cinco etnias diferentes.
O Casamento de Rachel
De longe, uma das DRs mais abertas e honestas que eu já vi no cinema. Nunca em qualquer outro filme que tenha assistido, os personagens foram tão claros quanto a necessidade de se discutir suas frágeis e complexas relações familiares. A sinceridade de Kym, vivida por Anne Hathaway – cada vez mais cativante e competente no que faz – quando em uma certa cena diz: “Você não pode trazer esse tipo de informação no meio de uma conversa como esta” é tão marcante e forte que nos faz torcer pela personagem talvez – sim, talvez – mais desequilibrada do filme. Porque sentimos que naquele momento, e não somente, ela tem razão.
Kym é essa figura desequilibrada – devidamente, dada sua história de vida – que sai da rehab por alguns dias para ir ao casamento da irmã, Rachel, interpretada por Rosemarie DeWitt, que tomaria fácil e rápido o lugar de Taraji P. Henson (O Curioso Caso de Benjamin Button) na categoria de melhor atriz coadjuvante do Oscar, caso eu tivesse algum poder de mudar as escolhas da Academia, lógico. A forma como a personagem foi criada é, muito provavelmente, o que o filme traz de mais original. Graças ao roteiro massa de Jenny Lumet, filha de Sidney Lumet (!), e aos esforços de Anne Hathaway, Kym sempre surpreende quando mais se espera que ela vá agir como uma rebelde sem causa, mostrando-se interessada e querendo se fazer presente ao contrário da forma como o seu estereótipo, principalmente visual, indicaria que ela se comportasse. Ela foi ao casamento e quer ser notada, mas não pelos motivos óbvios.
O Leitor
Honestamente, desde que o assisti no cinema há uma semana não consegui escrever uma palavra sobre O Leitor. Talvez por ter me decepcionado com Stephen Daldry e custado a admitir. Então vou me ater a poucos comentários e indicar algo mais substancial ou, no mínimo, mais detalhado sobre os equívocos desse longa… err… digamos, equivocado?
O roteiro não tem foco, não tem temática certa e às vezes parece que atira para todos os lados, sempre querendo comover – coisa que não acontece – o filme não emociona, ponto.
Kate Winslet tá básica. Sei lá daquele sotaque viu? Pra mim não foi suficiente pra me convencer de que é dela a melhor atuação feminina do ano. Muita nudez e tal, corajosa, se entregou pro papel, mas daí de repente ela envelhece e… não, Kate. Mesmo que a culpa não tenha sido somente sua.
Não vi muitas razões para a indicação de Stephen Daldry ao Oscar de melhor direção. O filme é até bem conduzido por ele, apesar do roteiro que tem. Tem umas boas tomadas, frias no estilo de As Horas, mas que simplesmente não chegam lá, se é que você me entende. Jonathan Demme fez um ótimo trabalho em O Casamento de Rachel, só pra citar alguém que poderia ter ficado com a vaga.
Enfim, pela semelhança das opiniões e porque eu acho que o texto merece ser lido por quem viu ou não o filme, indico o Da Década! do Tiago Lopes, que foi bem mais competente e esperto em sua descrição do longa.
Milk / O Lutador / Il Y A Longtemps Que Je T’Aime
Milk
Um bom filme sobre o início da luta por direitos homossexuais que ainda dura nos Estados Unidos, tendo como pano de fundo a ascensão de São Francisco como capital gay de seu país. Milk, é meio arrastado, mas dirigido de forma brilhante. Gus Vant Sant foi bastante sensível ao captar algumas imagens. E isso aliado as pequenas ousadias narrativas presentes no longa, fez com que o visual do filme virasse, para mim, o personagem principal. O mosaico de pessoas falando ao telefone, por exemplo, ficou excelente. As cores no fundo de alguns personagens em cena são as mesmas que percorrem a fotografia do filme do início ao fim.
O Elenco do longa tá bem, mas quem se destaca mesmo é Sean Penn e seu nariz postiço. Sua interpretação é mais sutil e menos afetada do que imaginei. No entando, Frank Langella continua sendo minha atuação masculina preferida de 2008. Não entendi muito a indicações de Josh Brolin pra melhor ator coadjuvante. Não critico sua atuação, mas não vi nada demais ali, nem acho que precisava ver. Seu personagem é propositalmente meio apagado e poderia até ter aparecido menos.
Dúvida
O lado bom de subestimar um filme é que ele tem que ralar um pouco para parecer pior do que você já imagina que ele seja e, por causa disso, se torna uma surpresa fácil com poucas qualidades. Não que esse seja o caso aqui, não sei ao certo, I have such doubts. O fato é que Dúvida, foi, para mim, a surpresa da temporada. Estava até meio cético com relação as tão comentadas interpretações do filme, mas no final cheguei a conclusão que elas estão mesmo incríveis. Meryl Streep com seu sotaque do Bronx (“BOY! Come up here!“), Amy Adams e a ingenuidade em sua expressão corporal no tom certo, Philip Seymour Hoffman e seu “THAT is GOSSIP!” em uma das melhores cenas, e Viola Davis, menos de 10 minutos que lhe renderam – merecidamente – indicações de melhor atriz coadjuvante em diversas premiações. É fantástico como, mais do que qualquer outro artifício cênico utilizado pelos atores, as expressões faciais marcam as interpretações em Dúvida. Impressionante. Calados, cada um consegue mostrar em seu rosto qual o seu papel dentro das partidas de squash que constroem o filme. Sim, porque os diálogos ali não são menos agressivos e estratégicos do que raquetadas astutas.











