Chutando pra longe a ironia que marcou Beleza Americana, Sam Mendes volta fazendo um retrato pessimista da medíocre e frustrante vida de um casal de americanos dos anos 50. Os perfeitos Frank e April Wheeler (Leonardo DiCaprio e Kate Winslet em terra firme, dez anos depois de Titanic) são os protagonistas de fachada de Apenas Um Sonho. Sim, apenas de fachada, porque a personagem principal aqui é, na verdade, a American way of life, que todos nós lemos a respeito e estudamos nos nossos livros de história.
Em se tratando de contextualização, o filme é um retrato perfeito: businessmen vendedores de máquinas de sei lá o que, trabalhando em seus cubículos no 15º andar de um espigão qualquer, Amélias que cuidam das casas de madeira, dos gramados incríveis e põem o lixo pra fora na hora certa, e desesperança, principalmente desesperança. Os perfeitos Wheeler vivem nessa época em que era mais fácil fechar os olhos e aceitar o destino estúpido que lhes foi empurrado quase goela abaixo pela sociedade, do que lutar contra os padrões e serem tão revolucionários quanto o nome da rua em que moram, Revolutionary Road.
Mais trágico e menos revolucionário do que eu esperava, Apenas Um Sonho mostra a morte do amor em um casamento apático que perdeu a validade porque foi conservado no lugar errado, num mundo onde a única pessoa inteligente que falava realmente o que pensava estava de passagem fora da clínica psiquiátrica em que foi internada. O personagem vivido por Michael Shannon, aliás, aparece pouco, mas tão intensamente interpretado que até assusta. Junto com os Wheeler, o matemático estranho de personalidade destrutiva caminha num bosque numa das cenas mais delicadas em que dialogam sobre o vazio daquele universo em que estão presos e não conseguem escapar.
É uma história de desespero emocional que falha “apenas” na originalidade e sofre de bad timing. Me surpreendi ao encontrar nos conflitos vividos pelos personagens um nível de complexidade abaixo do rotulado pela crítica especializada. Talvez isso tenha se perdido no roteiro adaptado do aclamado livro escrito por Richard Yates, mas os problemas, apesar de angustiantes, não me pareceram tão insolúveis como mostrados no filme. E quanto a temática, Apenas Um Sonho lembra um tanto Pecados Íntimos de 2006, também protagonizado por Kate Winslet, que aqui quase reprisa o papel de Sarah, mas graças ao seu talento como atriz isso não acontece. De braços dados com DiCaprio, Kate faz das interpretações o melhor do filme. Os dois estão totalmente em sintonia tanto nos momentos de cumplicidade quanto nas brigas mais tensas dos Wheeler, fazendo de suas atuações, isoladamente, um bom motivo pra conferir a obra.





Estou ansiosíssimo para ver esse “Revolutionary Road”, até porque adoro o cinema do Sam Mendes. Que bom que pelo menos quanto às interpretações parece não decepcionar.